A idade ridícula
acostumar-se com a escassez ou trair a própria origem
o conceito freudiano que certamente mais atravessou os meus seis anos sobre o divã vermelho aveludado cafonérrimo do Otávio foi tratado em Os arruinados pelo êxito, de 1916, quando Freud organiza a ideia de fracasso no triunfo. ainda incapaz de curar o meu acordo silencioso com a escassez, tenho repetidamente evitado desviar do regime de sobrevivência instaurado desde a infância.
quando se cresce aprendendo que tudo é provisório, que qualquer excesso é um risco e que a permanência é um privilégio não concedido, o suposto êxito não aparece como triunfo, mas como afronta à lei antiga de contenção e um chamado constante à reinvenção.
aprender a sobreviver, apostar sem garantias, sustentar posições sem amparo. viver sob o efeito contínuo da economia da escassez. foi assim que aprendi cedo a sobreviver entre regimes de exceção com crenças religiosas firmes e períodos de exílio em casas provisórias. coleciono mais de vinte e seis endereços ao longo da vida em oito cidades, quatro estados — por alguns meses uma rede estendida na oficina mecânica engraxada do meu tio. antes de encontrar qualquer vocação, a vida prática exigiu ocupações pequenas, repetidas, sem promessa de permanência: balcões, caixas, turnos, vendas improvisadas, funções emprestadas.
cresci dentro de uma seita religiosa. passei vinte e três anos sob a tutela de uma doutrina que antecedia qualquer escolha. não conhecia nomes de bandas de rock, clássicos da MPB, obras de literatura contemporânea e era incapaz de passar um rímel. a vida sexual iniciada tardiamente, a vida afetiva postergada, o contato com o mundo sempre mediado por assombros escatológicos e esperanças soteriológicas pífias.
a escolha pela vida acadêmica nunca se apresentou, potanto, como algo que pudesse ser conduzido sem risco.
a fidelidade à escassez. a segurança do improviso. o ato contínuo de acostumar-se a um eu provisório. é assim que a fuga da pobreza se inscreve não apenas como condição material, mas como gramática afetiva.
houve um momento em que tudo estava, objetivamente, no lugar. foi nesse ponto que algo começou a ceder. o triunfo deixou de funcionar como horizonte. a mudança de cidade, o deslocamento dos vínculos, a passagem da expectativa para a posição efetiva tornaram evidente que habitar o horizonte é menos estimulante que a expectativa de encontrá-lo. o êxito não trouxe repouso, mas a exigência de habitar um lugar sem o conforto do desejo adiado. o eu que se organizava em torno da falta perdeu sua função.
freud discorre que triunfar significa, nesse registro, ultrapassar a figura paterna — e, ao mesmo tempo, sofrer ao realizar o desejo interditado de ocupar o seu lugar. o êxito ativa uma dupla vertigem: de um lado, a satisfação narcísica da superação; de outro, a culpa inconsciente da qual essa satisfação é produto. sabotar o próprio sucesso ou vivê-lo como fracasso torna-se uma forma de defesa contra a fantasia de usurpação edípica e contra a retaliação superegoica que dela decorre.
o colapso aparece como uma forma tardia de autopenalização. nem toda realização é habitável. há conquistas que excedem a economia psíquica do sujeito e exigem, como contrapartida, a autodesorganização.
o eu anterior — longamente investido, construído sob a insígnia do desejo, moralmente protegido — tornou-se obsoleto. quando o sujeito alcança a realização, esse eu projetado perde sua função. o êxito opera como descontinuidade: desorganiza o regime identificatório que sustentava o sujeito na posição de espera, de falta, de subordinação simbólica.
vencer é agora restaurar a continuidade psíquica diante do apego libidinal a uma identidade que não pode ser habitada.
talvez triunfar seja isso: não mais viver um luto silencioso por um modo de ser que só existe no gerúndio; mas desmoronar a ficção de que a realização seria capaz de reconciliar o sujeito consigo mesmo; e aceitar que ir longe demais é, na verdade, sobreviver à conquista.
A dança da vida, 1899. Edvard Munch.
A Aranha Chorosa, 1881. Odilon Redon.
Perfect Lovers, Félix Gonzalez-Torres.



